domingo, 24 de maio de 2015

São Mamede... o Ultra... Trail Curto


Amanhece assim em São Mamede

Será que me custou mais a escrever esta crónica, com tantas experiencias por contar ou os 27 kms tórridos e a dores no corpo e musculares? Já se passou mais de uma semana e nunca mais consigo publicar o texto. Será que o calor promove essa alergia que se chama procrastinação? Bom, depois dos festejos do Benfica, vamos ver se é desta.
Desde a primeira visita ao Marvão, há muitos anos atrás, que a Serra de São Mamede ficou marcada a ferros no meu interior. Desde as cumeadas onde cinzento granito que parecem rasgar as costas esverdeadas da montanha, até vales encantados onde os castanheiros e os carvalhos andam de mão dada com os sobreiros e azinheiras, paisagens magníficas rasgadas por rios e ribeiros que passam por baixo de pontes romanas em sítios onde o tempo parece repousar há milénios.
 
Quando me inscrevi para esta prova, e atenção eu inscrevi-me para o Trail Curto, nada de corridas de 42 kms muito menos de 100 kms, sabia que seria o maior desafio que já tinha encontrado. Uma prova de 25 kms (26 e qualquer coisa no final), 700 metros de desnível acumulados, 30º de temperatura máxima e uma montanha que sempre me meteu respeito.
 
De carro, saímos de Lisboa na 6ª feira à tarde, o Pedro e o Miguel iam nos lugares da frente e Eu e o Eduardo partilhávamos os lugares de trás. A viagem decorreu sem incidentes, a paisagem ia passando à medida que íamos deitando palavras fora, de forma agradável mesmo pese embora as nossas tentativas de irritar o portismo do Miguel com cânticos benfiquistas este demonstrou ser impassível e não responder a provocações.
 
Será que ia correr bem, pensava eu mergulhado nas trevas da noite
Já no hotel, a Carla, a Luna e a Tara receberam-nos com uma alegria e uma doçura contagiantes. Nunca tive uma recepção tão hospitaleira. Fomos apresentados aos quartos e depois de jantarmos umas plumas que se desfaziam na boca, voltamos ao nosso covil para pernoitar. Ajudei o Eduardo a fazer a cama, para garantir que passava uma noite pré corrida o mais confortável possível.
 
Equipamento pronto
 
Às 6:30 de uma noite branca em que o vento não parou de assobiar, e onde só o Pedro conseguiu dormir, levantamo-nos e fizemos o que tínhamos de fazer para tomar um pequeno-almoço digno de Reis pela qualidade dos ingredientes.
 
No Autocarro
Eram 8:00 e estávamos sentados nos autocarros que nos iam levar a Castelo de Vide, onde seria dada a partida do Trail Curto. Às 8:30 todos os corredores estavam prontos, e a organização aqui podia ter sido proactiva e com o calor que se previa, podíamos todos ter partido às 9:00, mas só às 10:00 é que se deu a...
 
A equipa pronta
Partida com uma volta em Castelo de Vide saímos descendo em direcção à montanha até que logo no 1º km encontramos um caminho romano que prometia levar-nos ao céu e que nos obriga a andar a passo. Depois de rapidamente subirmos 150 metros em altitude num caminho romano e de passo após passo vencermos o cume, começamos a rolar.
 
 
De repente a serra dá-se-nos em todos os seus segredos, um vale encantado de prados pintados de todas as cores, com manadas de gado Mirandês (sim, escrevi bem Mirandês) e alentejano, cavalos de pelo reluzente ao Sol, descidas técnicas... Ahhh Era para isto que eu tinha vindo, é isto que me faz correr.
 
 
 

E assim se passaram os primeiros 6 kms em 36:11, o que é muito bom para corridas de montanha, mas… há sempre um mas… o calor começava a fazer mossa e as minhas pernas entraram num processo automático de gelatinização (processo que só terminaria uma semana depois numa aula de natação).
Estás a olhar para mim
Era altura de deixar o Eduardo e o Pedro ir à sua vida a dois pelo meio do mato, e abrandar a velocidade. Faltavam 21 kms para acabar e sabia que agora seria uma aventura individual de introversão.
3 kms a rolar em estradão e floresta e cheguei ao primeiro abastecimento, onde mal cheguei me despedi do duo maravilha (Pedro e Eduardo). Como não trouxe copo entrei em pânico, só existiam garrafões de água e no abastecimento, ah mas existe uma fonte pública. Tiro o boné, meto a cabeça debaixo de água e bebo a água mais fresca que alguma vez encontrei. Um cubo de marmelada para o caminho e força nas canetas.
 
Entre o 1º e o 2º abastecimento, no 15/16º km a correr sozinho, foi onde mais me diverti mais, ter a possibilidade de correr por bosques carvalhos descidas técnicas por regos, saltar muros, subir por veredas, passar por riachos por lagoas lindas onde só me apetecia tirar a roupa toda e ir lá para dentro. As aventuras sucediam-se umas a seguir às outras e eu sentia-me como uma criança.
Houve uma vez em que visualizo um riacho à minha frente, perpendicular ao trilho, e um sobreiro que se espreguiça longamente por cima do rio. Pé ante pé poiso os ténis por cima das pedras escorregadias para evitar derrapar quando de repente vejo tudo negro e sinto uma dor lancinante na testa... É A DURA VINGANÇA DA CORTIÇA! Pois é, olhas para baixo e não vês o SOBREIRO MAL ENCARADO acima de ti. Tentei disfarçar e recomeçar a correr quando ouço atrás de mim um "FO...-SE", e digo para mim próprio, afinal não fui o único.


 
O trilho descia rapidamente e subia por veredas entaladas entre silvas e muros. Numa dessas veredas o trilho para e temos de saltar um muro de pedras só para andar dois passos e saltar o muro de volta. Tudo por causa de umas silvas casmurras que não saem do caminho.
No segundo abastecimento, era tão rico com tostas, marmelada, mel, alcagoitas, batatas fritas, água, bebida isotónica e coca-cola, que quando dois amigos me disseram que havia arroz de marisco acreditei durante 5 segundos.
Pouco depois saio a correr por um prado verde que desaguava a sua torrente de flores num rio onde um pau de virar tripas em forma de homem vestido de corredor mal se mantinha em pé, enfiava repetidamente o boné dentro de água e despejava-a pela cabeça abaixo. Passei por ele, puxei por ele, olhei para o dorsal... faltavam-lhe 13 kms para acabar os 100 kms. Fez-me muita impressão.
Cerca dos 20 kms as pernas começaram-me a falhar e o corpo sentia-se cansado. Ao atravessar uma área relativamente descoberta começa-se a instalar uma dor de burro que me obriga a correr mais devagar.
Trilho Romano?
A uns 8 kms da meta, entro numa quinta e encontro um corredor extremamente musculado e com as pernas extremamente "secas", sem sinais de qualquer gordura. Acompanho-o durante 100 metros até que saímos por um portão para a estrada. A reacção dele ao sentir a dureza do alcatrão foi um grito exclamativo... "Porra alcatrão!"... admirado com a reacção de excessiva raiva dele olhei para o dorsal ... outro para os 100 kms, é impressionante o que a exaustão faz à cabeça das pessoas.
Seguiu-se uma grande subida, a terceira, difícil, grande e final subida. Vou ultrapassando alguns corredores que já vão quebrando devido ao cansaço. Desta feita na maior floresta de Medronheiros que alguma vez vi. Mas sem o fruto...ohhhh que desilusão.
Deixem-me ir mergulhar ali
Segue-se a maior descida que tinha apanhado na prova. As pernas começam a perder a força e a não responder totalmente mas é tão divertido fazer as descidas técnicas que não me importo, e vou assim no limite de rebolar até à Ermida da Senhora da Penha.
Eram quase 13 horas, o pico do Sol, quando cheguei ao último abastecimento. O calor rasgava-me as entranhas, e depois da senhora da organização quase me prender por não se ver o meu dorsal, abri a mochila, esvaziei violentamente toda a água (quente) que ainda trazia no saco, reenchi e bebi um litro de água de um trago.
Esperei algum tempo para não começar a correr com o estomago inchado e aí fui eu escadas abaixo a galopar até à tabuleta que anunciava os 5 kms finais. Aí entrei numa zona agrícola sem arvores, sem sombras, de caminhos em pó de estradão.
E ainda por cima gozam :)
O pó e o calor entranhavam-se em mim e com eles se esvaia a minha capacidade de correr. Andava 100 metros e corria outros 100, numa eterna repetição de um ciclo de cansaço, autocomiseração, desistência, insistência, perseverança, cansaço, autocomiseração...
Até que apanhei o Luís, outro corredor que apresentava os mesmos sintomas mas em vez de ter a minha cara de zangado com o mundo, ia sempre com um sorriso fleumático na cara. Já o tinha ultrapassado N vezes durante a prova e sido ultrapassado outras tantas. Resolvi colar-me a ele, para ver se me ajudava, e durante os últimos kms fomos lado a lado sempre a correr, muito devagarinho mas sem parar.

Sprint final no Tartan
À vista do Estádio dos Assentos e nomeadamente do tartan, não sei porquê... :) o meu corpo começou a esquecer-se do cansaço, da desidratação e das dores nas pernas, e começou a rolar mais rápido. Ao entrar no tartan, não sei o que lhe deu ao meu corpo, mas começa-me a sprintar, parecia que estava doida a ultrapassar outros corredores até à meta, onde disse para mim próprio... 3 horas e 23 minutos depois são horas de ir almoçar.
Bom, são horas de almoçar
Pouco depois de beber cerca de dois litros de líquidos variados, o Luís vem ter comigo para me dar um abraço e dizer um grande "Obrigado" que eu retorqui, e fiquei a cismar, e eu que pensava que tinha sido ele que me tinha ajudado. Afinal o companheirismo é uma estrada/trilho com dois sentidos.
Descansado e reunido com a equipa, dirigimo-nos para o hotel para tomar banho e, nos despedirmos com beijinhos e fortes abraços da Carla, da Luna e da Tara, e depois de nos ladrarem a despedida, fomos almoçar às 16h. De novo no estádio apanhamos o Miguel e um conviva de topo, o Marcolino Veríssimo, 9º da geral com cerca de 11horas e meia aos 100 kms.
E foi já ao por do Sol, quando arrancámos de Portalegre em direcção a Lisboa, que vejo alguns atletas cabisbaixos marchando penosamente por aqueles caminhos agrícolas onde me fui abaixo, como eu os compreendi e como eu os admirei.
Por muitas dificuldades e dores que me reservem, fui reconquistado por São Mamede, para o ano prolongo a relação para os 42 kms.

P.S. Quero agradecer ao André Noronha e à Cláudia Lourenço por algumas fotos dispensadas porque a minha camara avariou ao km 3. 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Trilhos de São João das Lampas


 
Há dias assim. Era manhã e era um daqueles dias que não me apetecia fazer nada. O meu corpo parecia feito de gelatina e ao final do dia tinha uma corrida tão dificil para fazer... suspirei... como é que conseguiria? A verdade é que eu adoro trails, confesso que adoro, mas sinto sempre uma ansiedade na partida.

À hora combinada apanhei  o Pedro em casa e há medida que e fomos navegando pelo IC19 para o ponto de recolha do Eduardo, o humor foi ganhando asas a cada golo do Benfica... está quase...

São João das Lampas recebeu-nos com um final de tarde magnifico, com o sol a acariciar as papoilas e os cardos que caracterizavam aqueles baldios e abraçava-nos com um calor confortável.
Cumprimentámos os amigos do costume e levantamos os dorsais, protegemos a senha destacável da sopa (Muito Importante), deslocamo-nos para a partida, vimos outros tantos habitués, incluindo um casal de bloggers e... partida.
Comecei a corrida desanimado, pois pese embora o ritmo dos 3 primeiros kms fosse rápido (cerca dos 5' ao km) foi feito em alcatrão por entre o casario que rodeava a vila. Afinal eu vim para a terra! Senti uma pontada em baixo no rim do lado direito. Era uma dor de burro estranha, vou chamar-lhe dor de mula, que me acompanhou até à entrada da primeira rampa de trilhos onde toda a gente parava de correr (que alivio). Foi o tempo de refazer os objectivos desta corrida, já não vai dar para fazer grandes tempos, portanto o melhor é aproveitar a experiência.

Deixei o Pedro ir à sua vida, disse "Pedro vai embora que eu já te apanho na sopa!" e ele como menino bem mandado, obedeceu.

Foi o tempo de passar por uma ponte romana, ver aqueles prados iluminados pela crepuscular luz, apertar os atacadores, passar muito tempo atrás da Miss Asics (a ver onde é que ela punha os pés), a saltar por rios (experiencia nova adorei), descidas técnicas, apertar os atacadores, passar por um lago espelhado (arrgh afinal é uma ETAR, que pivete), descer em direcção ao mar, apertar os atacadores (ups, o primeiro que responder quantas vezes apertei os atacadores nos comentários ganha um pastel de nata) até que...
 
 
 
 
 
 

Heis que perdi a virgindade nas descidas de ravinas para as praias, aquilo é que são descidas técnicas, em bicos de pés, de pedra em pedra a evitar cair por ali abaixo mas cheguei à areia são e salvo. Correr naquela areia não é nada agradavel mas também é uma experiencia nova. Saltando umas pocinhas e por cima dum riacho chega-se ao fim da praia ao que se segue...
A saida da praia era feito por um trilho minusculo, enlameado quase na vertical que se subia agarrado às raizes  dos arbustros e puxando o corpo para cima. Se derrapasse morria lá em baixo. Bom, não caí.

Mais uns kms feitos nas falesias e nova descida para outra praia, mas desta vez já está na hora de ligar os farois que está a ficar escuro. Vamos lá estrear o frontal, olha e não é que funciona?
 Na escarpa de saida desta praia não sei o que me deu, parecia inspirado pela metade superior do sol que mergulhava lentamente no oceano, subi a ribanceira quase vertical a correr e aos saltos como se literalmente fosse uma cabra montesa, ultrapassava facilmente os atletas que estavam à minha frente. A meio da subida pensei: 'quando chegar lá a cima vou estar todo rebentado e todos estes comparsas me vão ultrapassar de novo'... e assim foi ultrapassaram-me todos, mas a verdade é que me diverti à grande a subir a encosta.
Chegado lá acima, e como fadas brincando no crepusculo, dançavam particulas prateadas à frente dos meus olhos, brincando comigo, lançando-me num mar de interrogações... Seria que do cansaço já via os meus medos ou os meus sonhos a materializar-se à minha frente? ah eram goticulas de humidade, da maresia a voar à minha volta.
Tinha feito 15 kms, já não se via qualquer resto de luz solar. Um a um fui ultrapassando os corredores do grupo até que dei por mim só, correndo só, completamente só perdido num canavial na noite negra a meio caminho de volta. E se me acontecesse alguma coisa? e se torcesse um pé? e se partisse uma perna? ninguém me ajudaria... eu sei que deveria pensar nisso mãe... sim, mãe, tens razão mã.
Mas a verdade é que estava em paz. Estava comigo, com as minhas goticulas e com as minhas estrelas. Todas me  acompanhavam nesta paz. Trevas por fora, luz por dentro. Só e sem medo... Sorri.
Pouco a pouco, passo a passo fui-me aproximando de uma corredora, e quando me aproximo dos calcanhares reconheço a  Miss Asics que também ia só no longo caminho de retorno. Ao ir atrás dela reparo que a minha luz tem mais potencia que a dela o que causa a projecção da sombra dela para a sua frente impossibilitando a progressão normal. Passo a correr ao lado dela e digo, assim "ilumina-se melhor" e ela sorriu e agradeceu. Fomos assim numa cumplicidade silenciosa durante 2 kilometros até uma feerica ponte romana iluminada por tochas.
Os últimos kms foram feitos por um casario mal iluminando que retirava alguma da magia de correr à noite, até que entramos na vila e num sprint final, à meta.
Depois dos alongamentos obrigatórios, finalmente a verdadeira razão pela qual eu vim a esta corrida, eu e o Pedro dirigimo-nos ao centro recreativo e cultural, passámos o salão de baile, saimos, entramos na cozinha dirigimo-nos à sopeira e  recebemos uma merecida e saborosa sopa de couve lombarda.
Adorei a prova, adorei correr sem stresses de tempo, o pôr do sol, a descida da praia, as falésias, correr sozinho à noite e a sopa claro. Só faltou a bifana a acompanhar. Para o ano há mais!

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lisboa Triathlon - Um sonho cumprido em três actos

Eram 4h45m quando o despertador tocou. Tinha dormido pouco mais de quatro horas, mas tinham parecido apenas quatro minutos. Tinha chegado o dia do Lisboa Triathlon, algo que estava no meu horizonte há bastante tempo. Há tempo demais. Mas há objectivos que não podem ser apressados e este era um deles. Tinha de chegar na altura certa. 2 de Maio de 2015 era o dia.
Na véspera tinha ficado já tudo pronto. A bicicleta já estava no carro, o saco já estava fechado e o que havia a fazer nessa manhã estava já organizado. Ainda não eram 6h e já estava no carro a caminho do Parque das Nações. Mal podia esperar por lá chegar e entrar num ambiente único.



A chegada ao Pavilhão de Portugal foi fantástica. Aquela pala de Siza Vieira albergava mais de um milhar de bicicletas e o espaço parecia ter sido desenhado à medida para servir de parque de transição para um triatlo. Sem pressas, a olhar para tudo, a absorver tudo e a apreciar o momento, encaminhei-me para o meu espaço. Pela primeira vez tinha um espaço reservado para mim, com o meu nome em grande, bem em destaque. Eram 6h40, tinha todo o tempo do mundo. Preparei tudo ao pormenor, sapatos aqui, ténis ali, capacete virado para cima, óculos lá dentro, etc, etc. Ao mesmo tempo ia olhando em meu redor. Espanhóis - muitos -, ingleses, alemães, irlandeses... Portugueses eram poucos, mas ali a nacionalidade era o menos importante. Íamos todos ao mesmo. Com tempo de sobra quase me custou sair daquele ambiente do parque de transição, mas tinha de ser. Deixei o saco no bengaleiro e encaminhei-me para a zona da partida da natação. Eram cerca de 7h20m e já havia gente na água para o aquecimento. Nervoso. Muito nervoso, mesmo. Mal podia esperar pela minha vez. Por essa altura já era quase impossível reconhecer quem quer que fosse. Todos de fato vestido, de touca na cabeça e óculos de natação. Os rostos eram de concentração, por um lado, mas de euforia por outro. 7h50m. Estava na hora.

A melhor natação de sempre

(Com este cenário, alguém duvida?)

O aproximar da água foi o ponto mais alto do meu nervosismo. Sem dúvida. Estava prestes a entrar da Doca dos Olivais, a "casa" do Oceanário. Lá longe já iam os Elites e eu olhava para o que tinha de fazer. Duas voltas. A montanha-russa de sentimentos da última semana mantinha-se. "Vai correr bem. Vai correr bem o tanas..." Não sei porquê, mas este turbilhão desfez-se assim que pus os pés dentro de água. À medida de caminhava pela rampa do Clube Náutico ia ficando mais calmo. A água não estava fria e consegui caminhar quase até ao ponto de partida. Isso ajudou-me. Estranho... mas ajudou. 8h00m. Soa a buzina.Vamos a isso.

Já uns nadavam e ainda eu tinha os pés no chão. "Deixa-os ir..."

Os primeiros metros são uma história já contada. Cá fico eu para trás, deixo-os ir à vontade enquanto tento encontrar o meu ritmo. Demoro um pouco, mas lá me apercebo que aquilo era uma piscina em ponto gigante, sem ondulação, sem corrente... e de água salgada. E começo a apreciar. Do lado direito, à medida que respiro, vejo o Parque das Nações a passar, a ficar para trás. E como isso ajudou. A existência de pontos de referência deu-me noção de movimento; as torres do Vasco da Gama, o Pavilhão de Portugal e, por fim, o Oceanário. Se, em 1998, aquando da Expo, me dissessem que um dia iria nadar em seu redor, nem a sonhar acreditaria. Mas ali estava eu a contorná-lo. E a coisa fluía bem. Estava a ser a minha melhor natação de sempre, calma, tranquila, sem sobressaltos. E nem as pancadas que ia levando de vez em quando me atrapalhavam. A primeira volta já estava, faltava a segunda, e de novo as mesmas sensações. Desta vez um pouco mais de pancada, por ter sido apanhado pelos que tinham partido cinco minutos depois, mas com calma tudo se fez. 45m34s depois do tiro de partida estava de saída da água, feliz da vida. A primeira etapa estava feita.
Nervoso... Menos Nervoso... Fantástico. Espectacular. Onde está a bicicleta?


Apostar tudo no pedal


A bicicleta - sabia-o há muito - seria o meu ponto forte. Podia estar aqui a diferença entre fazer uma boa prova e uma grande prova. A minha táctica era dar o máximo aqui para ganhar uma folga confortável a usar na corrida. O percurso é fantástico, muito bom, perfeito para este género de competição. Uma zona no centro da prova, onde está toda a gente, a apoiar, a tirar fotografias. Uma segunda zona ainda urbana, mas já mais calma, e por fim a solidão da estrada. Aqui só se via alcatrão e gente a andar de bicicleta. Era altura de acelerar. E foi fantástico assumir esse objectivo, pedalar sem restrições, dar sempre o máximo. A primeira parte plana foi excelente, quase a 40 km/h. A subida, inevitavelmente, fez-me abrandar, mas na descida seguinte vinguei-me. Pelo meio deu para apreciar os primeiros das Elites, Bruno Pais, José Estrangeiro e companhia. As bicicletas deles... uau... Até o barulho é diferente. Vruum.... Não se ouve a corrente a girar, nem os pedais, só o barulho do carbono a cortar o vento. A primeira volta estava quase feita e, de regresso ao ambiente de festa, abasteci-me dos bidons de água e lá vai disto. A segunda volta foi igual, assim como a terceira. Só à quarta a coisa foi diferente. Principalmente no retorno... Quem apareceu, quem foi? O vento! E logo agora que as pernas estavam moídas. Não dava para manter a média que vinha a fazer e estes últimos 10 kms foram feitos bem mais devagar. Sem crise, que o objectivo estava alcançado, terminar o segmento de ciclismo em menos de 3h. (1ª volta - 41m53s; 2ª volta - 42m23s; 3ª volta - 43m22s; 4ª volta - 46m37s) Total de 2h56m.
Início, meio e fim!


A incógnita da corrida

O objectivo final...

E eis que estava de volta ao Parque. A transição agora foi mais rápida. À entrada para o ciclismo tinha gasto 3m10s; agora 1m38s chegaram, e isto enquanto ouvia os berros do Ricardo a ecoarem pela pala do Pavilhão de Portugal. O Pedro também por lá andava, ambos de máquinas em punho, a tentar registar a coisa para posteridade. Agora era altura de correr. E se no ciclismo podia estar a minha salvação, aqui podia estar a minha perdição. Nas últimas semanas tinha-se desenhado um objectivo na minha mente que ia além de terminar a prova. Naqueles momentos bons perguntava-me se não conseguiria despachar este Half-Ironman em menos de 6 horas. Isso ia saber-se agora. Quando comecei a correr olhei para o relógio e ele marcava 3h48. Tinha 2h12 para fazer a meia-maratona. Sabia que era possível, mas não podia relaxar.
Começar a correr é sempre estranho. Corre-se a um ritmo bom, mas os pés estão muito pesados. E essa factura paguei-a bem cara muito cedo. Assim que saí do passadiço de madeira, apanhei o piso empedrado e fugiu-me o pé para uma ameaça de entorse. "Uff" pensei..., mas pensei demais. Enquanto suspirava por ter escapado a uma lesão a 18 kms da meta, eis que não levantei o pé direito o suficiente e ele embateu numa qualquer pedra levantada. Vi o chão aproximar-se rápido demais e só tive tempo de colocar as mãos à frente. Estava furioso. Mais que magoado, estava furioso. À minha volta via gente sem saber o que fazer. Queriam ajudar-me, mas por outro lado não me queriam tocar. Eu não queria que me tocassem. Queria levantar-me sozinho. Depressa caí, depressa me levantei. E vai de voltar a correr. "Força! Fuerza! Vamos!", ouvia por ali enquanto avaliava os danos. Mãos e punhos arranhados e joelho a doer. Olhei para baixo e vi as marcas do encontro com a calçada. Ao primeiro abastecimento lavei as mãos o melhor que consegui e tentei não pensar mais no assunto. Tinha quilómetros para fazer. O resto da primeira volta foi tranquila, mas aos 3,5 kms acabei por ter de andar um pouco. As pernas estavam a ficar cansadas. Tinha encontrado o "muro". Mas tinha de o enfrentar. Reforcei o organismo com gel e água e recomecei a correr, mas a segunda volta não foi melhor que a primeira. O Joel que o diga, que me apanhou naquela que foi, talvez a minha pior fase, em que estava bem cansado. Mas feitas as duas primeiras voltas as forças voltaram. Voltei a olhar para o relógio e só tinha passado 1h. Tinha ainda 1h12m para as duas voltas que faltavam. Ser sub 6h era um objectivo cada vez mais alcançável. Aumentei então um pouco o ritmo. Defini os meus pontos de paragem, junto aos abastecimentos, para recuperar forças e hidratar, mas quando corria, o ritmo era mais alto. E quando iniciei a última volta... uau... que sensações. Faltavam cinco quilómetros. Cinco quilómetros apenas. E como me diverti nesta última volta. Absorvi cada momento, em especial aquele em que me cruzei com um espanhol que tinha encontrado no chão - ironia das ironias - um boneco do IronMan, o herói da Marvel. Ele ia em êxtase. E eu estava lá perto. Estava a chegar à meta. 5h54m34s - é este o tempo oficial - depois de ter dado as primeiras braçadas, com 110 kms feitos, estava a cruzar a meta do Lisboa Triathlon. Sou Half-Ironman. Quem diria...




sexta-feira, 1 de maio de 2015

Há dois anos foi assim... Amanhã...

Hoje tenho pensado muito neste dia. - http://jrr-desporto.blogspot.pt/2013/05/um-dia-serei-eu.html

Foi mais ou menos há dois anos que visitei pela primeira vez o palco do Lisboa Triathlon, Triatlo Longo de Lisboa. Na altura estive por lá em trabalho, mas fiquei fascinado pela atmosfera. Decidi que seria ali que me estrearia na distância longa, de Half-Ironman. Amanhã é esse dia.

A zona de transição ainda vazia, mas já pronta à espera das máquinas a pedal








O nervosismo já cá anda há uns dias. O optimismo... vai e vem. Há alturas em que acho que estou super preparado, que vou fazer aquilo com uma perna às costas e que, quem sabe, talvez até baixa das 6 horas; e logo a seguir penso que não vai acontecer nada disso. Que vou rebentar algures e que vou ter de fazer meia-maratona a arrastar-me.  Amanhã saberei como correu.

O gel alinhado e pronto a usar

Bicicleta identificada

Tudo pronto a sair de casa

Para mim - quem me conhece já sabe - a prova já começou hoje. Há muita coisa para preparar - afinal são três disciplinas - e até fiz uma lista para não me esquecer de nada. Tinha 35 items...
De momento já está praticamente tudo riscado. Falta só mesmo o que tenho de preparar de manhã, isotónico, água e algo para comer entre sair de casa e o arranque da prova. A bicicleta está pronta, o resto está tudo arrumado e pronto a pegar e sair de casa. O despertador vai tocar às 4h45... O tiro de partida soa às 8h.

Tic, Tac...
Tic, Tac...