(reparem: não parece o Joel?)
Acabei
de ler o livro "Auto Retrato do escritor enquanto corredor de fundo",
de Haruki Murakami. O livro conta-nos como o autor, depois de ter abandonado um projecto de gestão
de um bar de Jazz em Tóquio para se dedicar profissionalmente à escrita,
inicia-se na corrida de longo curso. Inicialmente apenas para se manter em
forma, é um ano depois que percorre a correr os 42.195 metros que
separa Atenas de Maratona.
Do ponto de
partida da corrida, o autor conta-nos como o seu hobby, se entranha em si,
molda o seu ser e como influencia a sua própria escrita.
Passo após
passo, palavra após palavra, Haruki descreve-nos da reacção do corpo quando
corremos em diferentes estados meteorológicos, ao longo dos quilómetros que se
acumulam nas pernas, ao longo dos dias consecutivos a correr, das diferentes
provas, de maratonas de Boston e de Nova York, ultramaratonas e triatlos.
"Vendo
bem, em que penso eu, exactamente, enquanto corro? Para dizer a verdade, não
tenho a mínima ideia... Corro, só isso. Corro no vazio."
A experiencia,
as sensações e emoções que o autor nos transmite, à medida que vai
correndo - todos os dias cerca de uma hora - é a do corredor introvertido, que
pratica um prazer solitário e que aproveita o tempo e exercício para meditar, ou
melhor, para esvaziar a cabeça. Aqui a minha experiencia é diversa da do
autor, pois pese embora adore correr sozinho e confesse que de vez em quando
sinto mesmo uma necessidade de o fazer, gosto muito de correr acompanhado com
amigos, ainda assim não invalida a riqueza da experiência e da leitura.
Mas, como se
fosse um diário, também nos vai abrindo as portas da sua vida, todos os seus
altos e baixos, ao longo das provas, ao longo dos romances. De como correr
longas distâncias se equipara à luta diária para escrever um romance e no
fim de contas como correr uma maratona é a própria vida e como a enfrentamos.
Como
que, mais do que um exercício físico, centrado nos músculos, a corrida de fundo
é um exercício cerebral de persistência, de não desistir, da força de vontade.
Através
de um caminho autobiográfico, o escritor leva-nos a conhecer o mais íntimo de
si, conduzindo-nos num labirinto de trilhos feitos de palavras, à medida que
nos vai contando as suas memórias e abrindo a sua alma.
Excelente
leitura para quem partilha do amor do autor pela corrida, mas também um livro
sobre a vida... Recomendo vivamente.
P.S. E já é o meu segundo escritor preferido que pratica atletismo :)