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terça-feira, 12 de julho de 2016

Voltar a voar em Sintra e Ténis Novos de trail


Depois de umas semanas assolado por uma crise de ciática na perna direita, resolvi ir correr para Sintra, algo que já não fazia à muito tempo, demasiado até, porque quero voltar a fazer o trail do Monte da Lua, mesmo que sejam só os 26 kms porque ainda não me sinto preparado para Ultras.


Mesmo sozinho, mesmo com o corpo castigado por um vento cruel, tinha saudades de fazer o trilho das pontes, tinha saudades de subir à Pedra Amarela e de trilhar por aqui e por ali, à mercê da minha vontade e dos meus caprichos. Subir com o vento, saltar por pedras empilhadas e passar por baixo de arvores caídas.


Começou este fim de semana a minha preparação para a Ultra do Gerês, durante os Campeonatos do Mundo de Trail a 29 de Outubro. Espero que nada se oponha a esta prova, nomeadamente as típicas lesões.

Entretanto fui abordado por duas jovens raparigas atléticas e bem dotadas, que me prometeram prazeres carnais (leia-se SEXO) em troca de umas palavras amigáveis aqui neste blog sobre os Salomon Sense Pro 2. Devo informar sou uma pessoa de elevados padrões éticos pelo que recusei ver a minha alma profanada em nome destes excelentes ténis de trail, extremamente leves, e com uma grande capacidade de amortecimento, protegendo as articulações do impacto de cada passada. Adorei!
Aconselho toda a gente a comprar os novos Salomon Sense Pro 2.
 
  

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Treino em Monsanto - É do calor



Para este fim de semana queria, e sabia que precisava, de fazer séries. Já não as faço há muito tempo, e para alem disso sinto-me a ficar pesado e lento.  Cheio de determinação dirigi-me ao Estádio Universitário de Lisboa e comecei a fazer um aquecimento de cerca de 3 kms antes de começar a dar à sola.

O calor sempre teve um efeito em mim,  ou melhor vários efeitos, as sabem daqueles dias em que o nosso corpo não apetece nada correr, em que os músculos não são músculos mas sim gelatina, e nós mal conseguimos correr quanto mais sprintar ou fazer séries e a única coisa que nos apetece fazer e parar, deitar e dormireeeeeeeee ......zzzzzzzzzzzzzz ............... sabem? digam que sim para me fazer sentir melhor.  Nunca se diz que não aos malucos.

Para além disso, as casas de banho da piscina do Estádio estavam encerradas e como estava tudo contra mim, interrompi o treino. E fui para onde?  mesmo não correndo a grandes velocidades havia ali perto um sitio que sempre me recebeu de braços abertos, ou melhor de ramos abertos. Não não foi Almada, fui para Monsanto.


Estacionei no Jardim do Calhau, liguei o relógio, e por baixo daquelas abóbodas de pinheiros mansos passava um brisa calma que desabafava o ar irrespirável que encontrei no EUL. Por baixo daquelas sombras, lá dei as voltas habituais para aquecer e resolvi fazer a ligação com a Mata de São Domingos de Benfica. Percorri com prazer o seu longo estradão até chegar quase à Embaixada do México e depois voltei para trás.

À medida que voltava, vi a aproximar-se perigosamente um entroncamento com um trilho que costuma ser o meu ponto de partida para maiores aventuras. Não levava ténis de trail (quer dizer sapatilhas para o pessoal a norte do Mondego) , e só queria fazer um passeio de 10 kms para queimar calorias e tinha algum receio de me entusiasmar, mas no final do trilho, em vez de seguir para o próximo, e por ai a diante, conseguir ter o bom senso de voltar atrás para o estradão.


Com uma paragem breve pelo chafariz para beber e despejar água pela cabeça abaixo, voltei a correr até que no final da saída do parque da Mata de São Domingos de Benfica vi que o meu trilho preferido me piscava o olho, e eu como impulsivo que sou, sai do estradão e fui por ali acima.

Foi como matar saudades de um velho amigo, adorei subir em velocidade, pisar em cima das raízes no chão, sentir as folhas dos sobreiros por baixo dos pés, fazer curva e contracurva, encontrar um casal de jovens a fazer amor no chão num canto da floresta (ou sexo, não parei para perguntar se havia sentimentos à mistura), saltar por cima de um pinheiro, fazer um esforço final para superar a última rampa e chegar a outro estradão.

Aproveitei o estradão para correr um pouco sem subidas e recuperar a respiração, antes de fazer outro trilho de BTT por ali acima. Depois achei que já tinha tido kms de divertimento suficiente e fui naquele forno brando até ao Jardim do Calhau, para um sprint final. Alonguei paralelamente aos longos raios do por do Sol.

Eu amo a floresta, outros amam a floresta e na floresta. É o calor é o amor...
 
 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Memórias do Peneda Gerês Trail Adventure


Já passou tanto tempo que mais do que uma crónica, este texto é uma coletânea de memórias.


Cheguei à Casa Nobre do Correio Mor de Ponte da Barca, turismo de habitação, num final de tarde de sábado, que contrariava as anteriores previsões de frio para o dia da prova. Instalei-me no quarto e antes de sair para jantar com os meus companheiros de viagem, a simpatiquíssima D. Céu, que pergunta-me: amanhã a que horas quer que lhe sirva o pequeno-almoço? a medo respondo-lhe: Às 7:00? - e segue-se uma cara de pânico de quem estava à espera que eu dissesse 9:00. Mas tudo se compôs...

 

Ao por do sol, vamos levantar os dorsais a Arcos de Valdevez, e quem é que eu encontro  à entrada da organização? Sim, o Carlos Sá claro, dahhh, mas para além dele? Sim, a Isabel Moleiro. Cumprimento-a e entre outras palavras ela picou-me: "Você aqui? Está perdido?" - Suspiro - A desmotivação perante uma das candidatas ao 1º lugar.

 

Na alvorada bebi cerca de meio litro de sumo de laranja e provei uns doces regionais suportados em fatias de pão quente (e não, não me deu a volta à barriga).

 
 

 

O dia nasceu grávido de aventuras, eu sorria debaixo de um azul limpo, o sol rasgava por entre o verde vivo das árvores, eu não tinha medo se corresse mal simplesmente porque estava onde devia estar, e eu estava em paz comigo mesmo. Fiz o controlo do equipamento, cumprimentei a Isabel mais uma vez, e vejo o Eduardo a chegar a correr sem saber onde fazer o controlo e colocamo-nos no centro da ponte, preparados para a partida.

 


Como sabíamos que ia ser uma prova com distância e altimetria que nunca tínhamos feito, resolvemos ir com calma e ir aproveitando a experiencia e as vistas, fossem elas quais fossem, era preciso aproveitar e encontrar continuamente motivação interior. Apenas por acaso, fomos quase sempre atrás de um grupo destes corredores nórdicos.

 (O fotografo queria tirar-nos fotos mas estas pessoas estavam sempre à frente)

Com o 1º km feito numa volta pela cidade branca granítica, com algum apoio popular, para iniciarmos uma subida, uma subida não, uma parede serra acima que se  iria prolongar uns  4,5 kms e iria subir 450 metros. Já sabendo o que nos esperava decidimos aproveitar a companhia e iniciar a caminhada com os outros corredores. Ao início ainda passaram dois a correr e a cantar "Allez France" mas foi sol de pouca dura, bem tentaram mas pareciam que não sabiam ao que ia.



 (Reparem nelas a pôr-se à nossa frente - incrivel)

Aproveitei para tirar fotos, apreciar a paisagens e o humor daqueles que me rodeavam, até que, no final a rampa cedeu no seu flagelo das minhas pernas e a inclinação começou a quebrar e de repente... de repente o Gerês era guardado por sentinelas gigantes, com o seu olhar granítico focando um vale infinito que nos deixaram entrar nos seus bosques mágicos, de carvalhos vestidos com túnicas de musgo verde.
(subir, subir, eu hei-de conseguir)

 

E assim começamos a rolar e a ganhar velocidade passo a passo até uma gaita-de-foles desafinada nos dar a boas vindas ao 1º abastecimento. Estávamos no 11º km. Venham daí as laranjas e as batatas fritas, um respirar fundo e tornamos a correr por carreiros encharcados ladeados por muros de pedra.

 


Corria lentamente, saltitando de pedra em pedra, tentando evitar o inevitável, a lama que mais minuto menos minuto, num passo mal calculado, iria penetrar nos meus Speedcross 3 até que as novas meias brancas tomassem para  si a cor para a qual desde o início foram criadas para ficar.

 

É assim, não há nada a fazer, e já devia saber, tantas corridas e sempre a dizer que nos trilhos “quanto mais água melhor” e depois não quero javardar os pezinhos... Bom, sem água e sem subidas não há trilhos, portanto toca a subir. Finalmente entramos no Parque Nacional da Peneda Gerês onde um casal de velhotes queridos iniciava um passeio romântico.




Novo abastecimento onde encontramos as musas nórdicas... sim na altura também eram nossas musas por via das endorfinas, infelizmente acompanhadas de guarda-costas de aspeto neo-nazi. Encontramos também um grupo de franceses com os quais partimos parque natural adentro, em trilhos perfeitos na combinação verde/castanho e os quais ficaram guardados na cabeça para lá voltar em breve.

 

Com o grupo de franceses fizemos um trajeto que subia novamente, já tinha saudades, com várias conversas poliglotas para nos ajudarmos mutuamente... "á gauche, a gauche" dizia eu. Quando passamos por uma estrada de alcatrão, coisa rara no trajeto, uma vaca de cornos magníficos olhava-nos de forma ameaçadora, ao passar falei com ela em “hmmmmmês”.

 

Reentramos no mato, e demos de caras com uma ponte em granito (quantas vezes já disse granito neste texto?) sob um carvalho e um rio que na sua adolescência rebelde saltava por cima de pedras e troncos por baixo.


 

Subimos, definimos que no dia seguinte iriamos ao Lindoso ver os palheiros, e demos por nós a passar ao lado de um bosque de cedro onde, de repente nos apercebemos que mesmo ali ao lado, estavam vários bois camuflados à sombra como que a adivinharem o calor que eu iria sentir novamente.

 

E quando paramos de subir e demos com a aquele planalto imenso de lajes de granito sob as nuvens, onde conseguíamos ver duas manadas de garranos a pastar livremente. Lá no topo do mundo, o calor apertava e quando nos aproximamos para passar um ribeiro que passava resolvi refrescar-me, enfiando a cabeça naquela água gelada que corria cristalina e não me pude conter… De rompante comecei a beber aquela água tão fresca e que me soube tão bem, um abastecimento improvisado.





Estávamos no topo do mundo. Endireitei as costas, levantei a cabeça e olhei em volta para os vales que nos cercavam e, correndo, senti-me a planar por cima daquelas gargantas. Abri os braços e corri como se tentasse voar, mas sentia que voava enquanto corria. Era livre feliz...



Alguns kms mais tarde começamos a descer, primeiro lentamente e a partir dos 22 kms tive de me aplicar no conceito de descida técnica. Aos 24 kms tivemos um pequeno abastecimento de líquidos e a partir daí começaram os problemas. Começo bem as descidas técnicas, baixando o centro de gravidade, evitando o contacto dos pés com o solo se prolongue muito tempo, numa ligeira cavalgada, mas rapidamente começo a sentir dores nos dedos quando travo (depois vim a saber que tinha uma unha partida), o que faz com que as descidas se tornem num ordálio de dor realizado à mesma velocidade das subidas.

Assusto-me com as dores, não pela intensidade, mas porque sei que ainda falta metade da prova e a partir daqui será maioritariamente a descer. Vou controlando a dor, aprendendo a colocar o pé, descemos por ravinas que não imaginava, pedra sob pedra. Mas assim vamos descendo, por trilhos e veredas.



A correr por caminhos de pedra abaixo, empolgamo-nos e o Eduardo abre os braços por cima dos muros de pedra até que, com um pequeno toque, uma das pedras se solta e cai para dentro da propriedade ao lado. De repente,  ouve-se um resfolhar dos arbustos que espreitam por cima do muro que se agitam em pânico. Atrás de mim vem um rapaz sozinho, à minha frente outro de bastões e o Eduardo.

 

Continuo a correr, tentando, perceber pelo canto do olho, o que se passa do outro lado do muro. às tantas entrevejo o dorso dourado de um animal barrosão que está entrou pânico e que corre paralelamente ao caminho, aproximando-se do trilho, até que às tantas entra no caminho e prova... Corre mais do que nós. É uma vaca com capacidades ao nível de top mundial do trail reconhecida, uma mistura entre vaca e cabra, é uma vacabra.

 

Disclaimer: A parte que se segue pode chocar os mais sensíveis. Não ler esta parte à refeição... Depois não digam que não avisei.

 

A Vacabra ocupa a largura toda do caminho e para agravar o problema, é que está em pânico e à nossa frente. Começo a reparar que a cavalgada não é o único sintoma de medo, para alem de me desviar das poças de lama tenho agora de fazer um slalom entre montes fumegantes de bosta... olho para a frente e vejo um esfíncter de Vacabra a funcionar.

 

A Vacabra entretanto desaparece e nós descemos para uma pequena povoação de montanha onde uma velhinha toda encarquilhada, com um lencinho preto na cabeça, nos diz assertivamente, como se já tivesse feito esta prova no mínimo umas cinco vezes, que não é por ali, que temos de voltar para trás e subir a ribanceira. Mas o rapaz que vinha atrás de mim não só não se enganou como não disse nada. Ficou-nos atravessado no goto.

 

O dedo grande do pé direito lateja de dor, que vai subindo alma acima, mas tal como em tudo na vida, não podemos parar, não é altura de desistir, assento o pé em pedra após pedra, subo, por entre riachos, subo, agarro-me a tudo o que posso, ramos, raízes, subo, sobrevivo, cerro os dentes, com as mãos empurro as pernas para me obrigar a subir, engulo a dor, determinado uno as minhas sobrancelhas, agarro-me com todas as forças ao sonho que estiver mais à mão, para fazer o próximo metro, que me transportará à próxima aventura, à procura de um pote de ouro no final do arco iris. Afinal de contas todos corremos à procura do mesmo... ah é verdade estamos a falar de corrida.

 

No topo espera-nos uma equipa de bombeiros locais, cumprimento-os com um "...dia", já não há forças para dizer bom dia. Perguntam se está tudo bem, penso que seria uma boa altura para desistir mas calo a fraqueza, e respondo que sim. No alcatrão começamos a descer lentamente um quilometro.



 

Entramos noutra povoação com outra velhinha muito velha - no Gerês a última moda andar de preto com um lenço na cabeça - e o Eduardo, com uma voz irritantemente fresca, pergunta-lhe "agora um chazinho quente é que ia?" e ela responde-lhe / nos "Chazinho quente? Branquinho verde fresquinho é que era!" Pumba, incha!

 

Ri-me. São episódios destes que me fazem adorar os trails. Estes e outras tantas razões que já descobri e mil e uma que hei-de descobrir. Acho que não consigo acabar um trilho e dizer só... Esta feito.

 

Mas nesta parte da corrida já predominavam as descidas. Perguntam-me se estou bem, respondo que sim, perguntam-me se tenho mais dificuldade nas subidas ou nas descidas, respondo nas descidas por causa dos dedos do pé. Entramos novamente em trilhos de lajes de granito, subindo agora um monte redondo, sem grandes escarpas, para depois descer até ao último abastecimento. Estávamos com 32 kms e faltava pouco pensava eu. Ainda apanhamos as Nórdicas no abastecimento...

 

Devo ter bebido um litro de isotónica, porque quando nos pusemos ao caminho sentia o meu estomago como uma bola aos saltos dentro de mim, mas saímos sabendo que a partir de agora seria sempre a descer, primeiro pelo alcatrão e depois por um trilho pejado de raízes. Começo a sentir a cada passada os joelhos a doer... corro mais devagar para me proteger.



 

Mas a descida acaba numa ponte de pedra... são estes momentos que compensam a dor. Num vale verde cavado por ou para um rio.

Continuamos a descer, a corrida vai longa, o dia vai longo, doíam-me os pés e principalmente a perna direita até aos glúteos. Naqueles vales onde não corria uma brisa o Sol não ajuda, no pináculo do dia, o cansaço quebrava-me o corpo, o calor a vontade.

 

O Eduardo bem faz por tudo para me motivar, vou correndo e andando, andando e correndo. Sinto um cansaço generalizado, quase febril. Sonho com banhos gelados. Um pouco adiante chegamos a um trilho paralelo às águas cristalinas do rio vez. Aos 37 kms, perto da passagem vemos, já na outra margem, o rapaz de azul que não nos disse nada quando nos enganamos e nos fez perder 10 minutos. Parecia que lhe conseguia ver o sentimento de culpa a desviar os olhos.

 

Um dos bombeiros que asseguravam a passagem em segurança, pergunta-nos: Ainda vem mais alguém? - Ainda vem mas alguém? Pergunto eu, com cara de ofendido, mas ele pensa que nós somos os últimos? Respondi que esperava bem que sim. Que desplante, não bastava quando fui levantar o dorsal... bom, o Eduardo enfiou-se dentro do rio sem olhar para trás e eu fui logo a seguir.



 

Parece que o que precisava de duas coisas para espevitar: a primeira era passar a minha metade inferior que corre por água gelada, parece que o meu corpo acordou depois disso, a minha mente ficou mais esperta, e a minha alma restaurada. Mesmo sentindo os músculos meio presos do frio, voltei a sorrir; a segunda coisa era ver o rapaz que deixou que nós nos enganássemos no final do episódio da Vacabra, lá em cima da cumeada.

 

"Vamos apanhá-lo" dissemos, e de repente tinha um plano e um grito cá dentro que me fazia correr. Pese embora o percurso fosse a subir, entramos em modo meia maratona atrás dele. Perdemos 10 minutos com a história mas mesmo assim iamos apanhá-lo. Os metros passavam, e a cada curva viamo-lo mais próximo.

 

Foi abençoados pela sombra de uma igreja, aos 40 kms, que o passamos. Primeiro o Eduardo depois eu, sem piedade. Ele ainda tentou resistir como se adivinhasse que havia ali qualquer coisa de pessoal naquele ajuste de contas, mas, depois de uma subida pequena em single track mas de por o coração a bater forte, via-se nos olhos dele que estava derrotado.

 

Mantendo o ritmo, continuamos a descer até entrar nos arrabaldes da cidade de Valdevez, onde encontramos o grupo de 4 franceses que, cansados olham surpresos para nós. Mas nós estamos lançados e de bom humor, é impressionante constatar a mudança que se deu em mim depois do baptismo de rio,

 

Sei que a meta estará ali ao virar de qualquer esquina próxima e deixo os franceses para trás, anseio por ver a ponte a qualquer momento, mais uma curva e vejo todo aquele esplendor de granito receber-nos em plena euforia, um sentimento que não se compara ao que me dominava entre os 32 e os 38 kms.



 

Depois da ponte, acelero a preparar um sprint final, afinal ainda tinha forças... gosto sempre de fazer um sprint final, já tinha dito? quando tenho forças - antes de passar o portal de chegada, já vou repleto de realização, com um sorriso na cara, cumprimento mais uma vez o Carlos Sá e vou colher o prémio mais desejado, melancia cortada em pedaços, que trinco sequioso, em desespero, sentindo dentro da minha boca todo o prazer do fruto a desfazer-se num liquido doce.

 

A Superação afinal é um sentimento que sabe a melancia que não cabe dentro de mim e jorra pelas faces abaixo. Tinha acabado de fazer a minha primeira maratona em trail.

A verdade é que, depois de muita dificuldade em conseguir tirar as meias e os ténis, porque cada posição me dava uma caimbra diferente, fiquei com um andar estranho. Só conseguia andar com as pernas abertas :).

A conclusão a que chego é  que podia ter feito menos tempo, se calhar menos meia hora, em parte por ter começado a prova de forma muito defensiva, mas começo a notar que a preparação na serra de Sintra fez efeito. Afinal não foi só para meu prazer. 

Também deixar um grande abraço ao Edas, não só pelas fotos mas pelo companheirismo e motivação que me deu durante a prova.

Gerês,  fui muito feliz contigo.

Até breve ;)

 

 

 

 

 

 

sábado, 30 de abril de 2016

PGTA 42 kms - Peneda Gerês Trail Adventure - Teaser





Podia discorrer aqui um discurso épico sobre a dureza das subidas ingremes durante quilómetros e quilometros, podia descrever as descidas técnicas de grande inclinação feitas com uma unha partida, podia até passar mensagem sobre das dores que senti, nos músculos, num torcicolo que me apareceu logo nos primeiros kms, dos joelhos que latejavam mas, nada disso...

 

Nada disso bate a felicidade que é andar livre pela montanha, nada disso bate o companheirismo do que é planear, treinar e fazer uma maratona seis horas e meia na montanha com amigos.

O prémio da corrida não é na meta, é a prova.

 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Barragem do Rio da Mula - O primeiro dia do resto da minha vida

 
Diz a canção, “a princípio é simples, anda-se sozinho”, ainda a relembrar as memórias da maratona de Barcelona que mexem muito comigo, mas tão focado nos 42 kms do Gerês que me esqueci de me inscrever para a corrida do Benfica. Ora não são os 42 kms que me assustam, “passa-se nas ruas bem devagarinho” e vai-se fazendo… não, o que me abre os olhos e me faz engolir em seco são os 1.800 metros de desnível acumulado. Nunca fiz nada parecido e o que fiz sei que me fez sofrer mesmo com cifras bem mais pequenas.
 
Assim, e pese embora a ausência do meu companheiro de trilhos, resolvi finalmente começar algo que adiava há muito tempo. “Estou bem no silêncio e no borborinho”, mas era uma ideia que já me lotava a cabeça e me escorria pelos olhos, estava farto de ler palavras e ver fotos nos blogues alheios, “bebi as certezas num copo de vinho” e decidi, tinha de começar a treinar na Serra de Sintra.
 
Numa alvorada que chorava indiferentemente à alegria da minha primeira vez, tinha combinado com um colega de trabalho às 8 da manhã, e devo ter sido o primeiro a chegar à Barragem do Rio da Mula. Nessa altura a chuva jorrava agora só pelos sulcos de serra abaixo e ela, com nuvens baixas que não a deixavam entrever, recebeu-nos coberta um véu nupcial, como se fosse a minha noiva, fitei o espelho de água que se abria à minha frente “e veio-me à memória uma frase batida…”
 
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
 
 
Devagar começamos a correr, “pouco a pouco o passo faz-se vagabundo”, era a primeira vez que iria entrar nela, enchi-me de coragem e aqui vou eu iniciar a primeira rampa, “dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo”. Deixei de pensar na Marató, “diz-se do passado, que está moribundo”. Dei a volta à barragem, “bebi alento de um copo sem fundo” e meti-me pelo Trilho das Pontes e com a beleza daquele bosque mágico “veio-me à memória…”
 
Subimos, subimos e voltamos a subir, com algumas paragens confesso, pelas entranhas de uma floresta que se encontrava vestida a rigor de um conto de fantasia. As árvores altas, a neblina, os cheiros e os sons criam uma envolvente de magia e mistério. Pelo caminho julguei ver uns elfos por detrás de umas árvores e juro que vi, uma moira encantada.
 
 
Até que finalmente nos encontrarmos numa encruzilhada que nos iria definir o treino todo. Daí iriamos explorar o parque numa estratégia em estrela. Ainda frescos, fomos descobrir a parede que nos eleva até à mítica Pedra Amarela. Mesmo nublada, ou se calhar, por causa disso, a Serra oferece-nos experiencias e sensações que nos sopram um sorriso na cara que só nós, uns e outros que passávamos por ali sabíamos o porquê cá dentro. Podia discorrer aqui mil razões que amanhã encontraria sempre mais uma para adorar correr na montanha.
 
Depois da Pedra Amarela, com todo o ritual que ela nos obriga, lançamo-nos numa série de voltas ao parque com um grau elevado de aleatoriedade, e onde me perdi várias vezes, algo que adoro diga-se, até que com 11 kms feitos, voltamos à Barragem para planear a segunda parte do treino.
 
E é aí que eu começo a ver, primeiro ao longe, depois mais perto, uma personagem recorrente nos contos de fadas que leio semanalmente… hesito… não é? É? É! A subir a serra encontro o Capuchinho Vermelho juntamente com o Lobo… Mau? Bom, se o lobo é mau ou não, só ela o poderá dizer, mas que parecia que ele, sobranceiro, olhava para ela com algum carinho.
 
 
 
Meti-me com ela, e lá nos apresentámos – “olá Capuchinho Vermelho” “Olá Olharapo velho” respondeu ela, um pouco a contragosto :P, lá conferenciamos sobre os treinos e os próximos desafios. Despedimo-nos mas como ela foi pela rampa que nós íamos subir, obrigou-me a fazer essa rampa a correr para não dar mau aspecto. Cena que se repetiu mais à frente quando eu subia calmamente e ela estava parada a decidir para onde ir: “João corre! Que não podemos dar parte fraca às visitas." Pese embora tenha sido pouco tempo foi muito bom conhecê-la, e ela sabe-o. Gostava mesmo que um dia destes para além de nos deliciar com rampas, ou outra forma de superação, nos delicie a todos com páginas de papel a jorrar de palavras dela que se unam em ideias dela.
 
 
Um dia talvez…
 
Mas sabem como é, depois de muitos quilómetros, uma pessoa está desanimada, “os amigos oferecem-nos leito, e entramos cansados e saímos refeitos”. E toda aquela (pouca) conversa encheu-me de vontade, Olhamos para cima e “luta-se por tudo o que se leva a peito”. Fomos outra vez à Pedra Amarela, enchemos os cantis, “bebemos, comemos e alguém nos diz bom proveito”, voltamos a correr para a Barragem e ao ver aquele espelho que nos recebeu à 19 kms atrás, “vem-me à memória uma frase batida”… vou fazer isto todas as semanas.
 
Ainda há muita letra para correr e serra para cantar.
 
Hoje foi apenas o primeiro dia do resto da minha vida.
 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Nano-micro-mini Trail de carnaval


Era Carnaval, estava frio, tinha chovido mas ninguém levava a mal.







Bombeiros de palmo e meio apaziguavam incêndios que se recusavam a esmorecer. E mulheres Vikings vertiam os seus machados de ternura em Flash Gordon's que, de tão novos, deviam ser apenas quinze quilos de gente para mil quilos de sonhos... Brancas de Neve com mães de freiras atrevidas mascaradas e pais de morte vestidos completavam o quadro. As crinças (as pequenas e as grandes) são o melhor do mundo!










Foi neste contexto que Monsanto me recebeu entre lençóis de lama e um bosque mascarado de paraíso.


Estava só mas não estava sozinho, rezei para que a floresta não me pregasse partidas e desatei a correr.






À medida que os uns passavam, as raízes e os ramos desfilavam por mim, com as suas cinturas a bailar em ritmo de samba, e os sobreiros vestiam-se de caretos olhando-me através das suas máscaras profanas levando-me a aventurar por trilhos por desvendar, e a trilhar aventuras por descobrir.





Será este o meu caminho? Perguntava-me...




A terra começa lentamente a acordar das trevas do inverno, e novos rebentos despontam, rasgando a terra, alimentados apenas por sonhos de uma Primavera que, de tão distante, às vezes parece impossível...









Os trilhos por pedreiras sucedem-se descidas técnicas a galope num carrossel de euforia deste baile de Carnaval... Grito de alegria no seio da floresta, mas se ninguém ouve será que a alegria existe?




No final, as manchas de lama eram uma marca da folia. Aproveitei para fazer um tratamento de beleza ao gémeos.









sábado, 31 de outubro de 2015

Trilhos de Halloween

Hoje acordei, levantei-me e fui... eu sei, era dia das bruxas, noutros tempos seria o inicio do ano novo no calendário celta... mas pese embora me tenha enfiado em modo de reconhecimento por trilhos desconhecidos em Monsanto, não vi fantasmas, nem cavaleiros sem cabeças, nem bruxas... mas que as há... há.




A luz "bruxuleava" por entre as copas...






(obrigado mais uma vez aos BTTistas pela criação destes trilhos maravilhosos)














Hmmm colhiam-se medronhos em Monsanto, passeavam-se cães e pais brincavam com filhos. Quando se tem as prioridades certas a vida é fácil.







No final foram só 11 kms, mas foram bons.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Maratona do Porto - Treino Crepuscular

Estava eu parado uma encruzilhada na minha cabeça ir à maratona ou não ir? Batiam as 18h de uma sexta feira, tinha gravado os ficheiros de excel, desligado o portátil e saí do emprego para "O treino". Monsanto esperava-me, enquanto a cidade a cidade estava mergulhada num crespuculo outonal numa tarde que já não era dia nem era noite, num Outono que já não era Verão, mas também não era Inverno.


Nesta antecâmara que tem sido a preparação Maratona, tinha corrido da forma anacrónica. Até ao primeiro treino de 25 kms, no inicio de Setembro, tinha corrido tudo bem, perfeito, o próprio treino correu de forma excelente, excepto aquela queda que me fez uma contusão nas costelas e me obrigou a ficar duas semanas no estaleiro... a perder a forma. Depois o regresso das dores da pubalgia no treino longo de 30 kms, dos quais só consegui fazer 27 kms, e acabei totalmente agachado por causa das dores.


Foi assim que sai da cidade e submergi em Monsanto, o cheiro a terra molhada lentamente lavou a fuligem da dúvida dos meus pulmões. Comecei primeiro pelos caminhos conhecidos de alcatrão para aquecer e depois fui para os estradões já conhecidos. O meu objectivo deste treino, não era nada de especial, era ver se em 10 kms as dores da pubalgia regressavam... e tomar a decisão sobre se iria à Maratona.



Depois de sair do Jardim do Calhau e entrar na Mata de São Domingos de Benfica, voltei aos estradões de terra batida até que, depois de uma curva, ergue-se à minha frente uma velha muito velha com uma ruga no nariz que me apontava o dedo para um trilho escuro, castanho para  BTT que desaparecia na folhagem verde, pelo menos foi uma velha que me pareceu à primeira vista, depois percebi que era um tronco de árvore tão retorcido, tão retorcido que parecia uma velha muito velha.





Há qualquer coisa de subversivo algo de profundamente libertador em correr em trilhos na natureza, quebrar os grilhões da cidade, sair da estrada por onde nós íamos e mergulhar na floresta, na montanha, a chover, com frio, sem ninguém nos dizer onde e quando deveremos correr, andar, tirar fotos ou voltar a correr, virar de repente à direita, ou à esquerda, subir montes, ver paisagens fantásticas ao mesmo tempo que nos sentimos parte dessas paisagens e portanto sentimo-nos fantásticos. A qualquer momento poderemos deslizar na lama, saltar sobre pedras soltas, com sapatos completamente enlameados, com silvas a rasgarem-nos as pernas, a passar por baixo de árvores caídas, com cada passada absorver todo e qualquer pensamento, correr em trilhos é a electricidade a percorrer o nosso corpo e a nossa mente, é como conhecer o nosso primeiro amor, uma e outra vez, é estar sozinho, sozinho, completamente sozinho, mas com melhor companhia possível, a nossa, até que cheguei àquela clareira, sem árvores altas à minha volta, apenas um grupo de rebentos verdes e amarelos que me rodeavam e me começavam a chegar à cintura, aos ombros, ali naquela clareira, sem vista para qualquer coisa nenhuma humana, despido de medos, despido de tudo, vestido de mim, ali naquela clareira estava ofegante, extenuado, suado e gelado, mas ali naquela clareira eu era livre, ali tinha um sorriso rasgado, ali fazia o que gosto e o que queria, era aquela a razão porque corria, ali eu era feliz, ali naquela clareira eu sou eu, mais nada. Se me visse de fora para dentro, o eu que estava naquela clareira, pese embora saber que não tinha o corpo preparado para fazer uma maratona, pese embora saber que nunca poria em causa a possibilidade de correr naquela clareira por causa de uma pubalgia que já o retirou três meses de actividade, aquele eu não irá à Maratona do Porto porque não é um sonho dele, pelo exercício de livre arbítrio, porque não o quer, porque não tem uma motivação intrínseca para o fazer, aquele eu, como os mais próximos dele sabem tão bem, nunca deu importância que outros dão à maratona, nunca sentiu o ouviu o chamamento, o chamamento dele vem da montanha, vem dos rios, vem dos pássaros, vem do resfolgar das folhas, vem da floresta, aquele eu tem 41 anos e já não está para fazer fretes, onde frete quer dizer, fazer o esforço descomunal que uma maratona exige para atingir algo com que neste momento não sonha, este eu não desiste do seu sonho em contrapartida da pseudo-gloria dada por uma maratona.





Subitamente o trilho acaba e numa contracção expulsa-me do ventre do bosque para um estradão, mentalmente grito em protesto contra o fim do trilho, o fim do prazer, o fim do bem bom que se estava lá dentro: Quero voltar!!!




Corro devagar para recuperar a respiração até que um Gaio se planta num ramo de um pinheiro a 3 metros de mim a grasnar ameaçadoramente, paro surpreendido pela situação, penso que deve estar a tentar proteger o ninho da minha presença, mas a verdade é que não estamos na época de nidificação... estamos no outono. Tomo aquilo como um aviso, olho para o relógio, reparo que já fiz 10 kms e sei que já tenho as respostas que queria e volto para trás resoluto e em paz comigo mesmo.



No final...

Ele: O que é que leva gente como tu e eu a adorarem passar 4 a 5 horas dentro da montanha a correr, e não encontram a motivação para passar 4 a 5 horas a correr em estrada?


Resposta: Não sei, mas descubro novas respostas a cada treino que faço...