segunda-feira, 23 de março de 2015

Descobrir os Trilhos de Monsanto



Tal como o nemátodo está para o pinheiro, desde a corrida da árvore que o bichinho de Monsanto tinha ficado cá dentro a corroer-me para ir correr para aqueles trilhos.
 

Mas uma pessoa acostuma-se a ter uma série de ações, pensamentos e comportamentos que não lhe causam nenhum tipo de medo, ansiedade ou risco, acabando por ir treinar sempre no mesmo sítio, é como se fosse uma maneira de evitar problemas. O que se por um lado lhe garante um desempenho constante e nos dá uma falsa sensação de controlo, por outro este medo limita-lhe o crescimento.



Como se fosse uma prisão onde a porta está aberta mas nós temos medo de sair e assim, continuamos ali. Sinto-me insatisfeito na minha relação com a estrada e se eu adoro correr em floresta, em montanha, porque não o fazer? Se é o que me faz feliz… Esta falta de conforto da felicidade acontece porque a surpresa é um elemento chave do bem-estar.

E neste fim-de-semana tive finalmente a coragem de sair da minha zona de conforto e avançar para deixar que a minha paixão platónica por trilhos começasse a ser mais… carnal.

 
Sim, fui correr sozinho para estes trilhos… e agora ouço a voz da minha mãe…

Sim mãe, já sei que é coisa que não se faz…

Sim mãe, podia ter acontecido qualquer coisa e eu não tinha ajuda…

OH MÃ PARA! E depois? Eu queria estar com a cabeça sem companhia, sabe-me bem de vez em quando. Não me torno misógino por causa disso pois não?

Cheguei à Alameda Keil do Amaral e não conhecendo a zona, resolvi adotar uma estratégia de exploração em estrela, no sentido dos ponteiros do relógio, indo e vindo ao centro da alameda onde sabia existir água. Tinha como objetivo inicial fazer 18 kms em corrida.

Quando comecei a correr, confesso que senti uma ansiedade inicial por percorrer aqueles caminhos desertos, ou se calhar não tão desertos quanto isso. Muitas famílias povoavam a zona em redor a alameda, mas não tinha sido para correr aí que eu tinha vindo, vamos para os trilhos.
 
(aqui ainda é meio civilizado)
 

(eu vou por ali)
 
(os cheiros)
 
(hmmm lama)


(aqui vou para a selva mediterrânica)


(cada vez mais esguio)

(embrenha-te)

(aqui já não há trilhos possíveis)
Após umas quantas voltas começo-me a sentir confiante e a descobrir uma zona de mata densa de sobreiros onde me enfiava repetidamente, perdendo-me em trilhos mínimos, levando com cumprimentos arbóreos na cara, saltando por cima de poças e de raízes, até que de vez em quando me deparava com a visão horrível da civilização.

(Arghhh tempo de voltar para trás)

Só me perdi 3 vezes,

Só fui arranhado por silvas 2.956 vezes

Só levei 397,5 chapadas arbóreas

Só engoli 19 moscas, 6 abelhas e um besouro (da próxima vez já sei que não é preciso levar gel para reabastecer) por correr de boca aberta

Só fui picado 87 vezes por melgas e 25 por vespas

Só me esqueci de ligar o relógio GPS 3 vezes depois de parar para tirar fotos, sou um sensível à beleza da natureza.

Nem sequer fui mordido por uma víbora

Nem sequer tive que fugir de um Veado (?!?!?!)

Foi giro
(anote-se que algumas das situações elencadas são de natureza puramente fantasiosa com o propósito único de aumentar o dramatismo)

Zémi: Ainda hei-de ir correr para Sintra…

Mãe: Não faças isso que te aleijas!!!

Zémi: Prontos um destes dias levo companhia.

Mãe: Companhia? O que é que os pais da companhia fazem?

… pára!