segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Maratona do Porto - Treino Crepuscular

Estava eu parado uma encruzilhada na minha cabeça ir à maratona ou não ir? Batiam as 18h de uma sexta feira, tinha gravado os ficheiros de excel, desligado o portátil e saí do emprego para "O treino". Monsanto esperava-me, enquanto a cidade a cidade estava mergulhada num crespuculo outonal numa tarde que já não era dia nem era noite, num Outono que já não era Verão, mas também não era Inverno.


Nesta antecâmara que tem sido a preparação Maratona, tinha corrido da forma anacrónica. Até ao primeiro treino de 25 kms, no inicio de Setembro, tinha corrido tudo bem, perfeito, o próprio treino correu de forma excelente, excepto aquela queda que me fez uma contusão nas costelas e me obrigou a ficar duas semanas no estaleiro... a perder a forma. Depois o regresso das dores da pubalgia no treino longo de 30 kms, dos quais só consegui fazer 27 kms, e acabei totalmente agachado por causa das dores.


Foi assim que sai da cidade e submergi em Monsanto, o cheiro a terra molhada lentamente lavou a fuligem da dúvida dos meus pulmões. Comecei primeiro pelos caminhos conhecidos de alcatrão para aquecer e depois fui para os estradões já conhecidos. O meu objectivo deste treino, não era nada de especial, era ver se em 10 kms as dores da pubalgia regressavam... e tomar a decisão sobre se iria à Maratona.



Depois de sair do Jardim do Calhau e entrar na Mata de São Domingos de Benfica, voltei aos estradões de terra batida até que, depois de uma curva, ergue-se à minha frente uma velha muito velha com uma ruga no nariz que me apontava o dedo para um trilho escuro, castanho para  BTT que desaparecia na folhagem verde, pelo menos foi uma velha que me pareceu à primeira vista, depois percebi que era um tronco de árvore tão retorcido, tão retorcido que parecia uma velha muito velha.





Há qualquer coisa de subversivo algo de profundamente libertador em correr em trilhos na natureza, quebrar os grilhões da cidade, sair da estrada por onde nós íamos e mergulhar na floresta, na montanha, a chover, com frio, sem ninguém nos dizer onde e quando deveremos correr, andar, tirar fotos ou voltar a correr, virar de repente à direita, ou à esquerda, subir montes, ver paisagens fantásticas ao mesmo tempo que nos sentimos parte dessas paisagens e portanto sentimo-nos fantásticos. A qualquer momento poderemos deslizar na lama, saltar sobre pedras soltas, com sapatos completamente enlameados, com silvas a rasgarem-nos as pernas, a passar por baixo de árvores caídas, com cada passada absorver todo e qualquer pensamento, correr em trilhos é a electricidade a percorrer o nosso corpo e a nossa mente, é como conhecer o nosso primeiro amor, uma e outra vez, é estar sozinho, sozinho, completamente sozinho, mas com melhor companhia possível, a nossa, até que cheguei àquela clareira, sem árvores altas à minha volta, apenas um grupo de rebentos verdes e amarelos que me rodeavam e me começavam a chegar à cintura, aos ombros, ali naquela clareira, sem vista para qualquer coisa nenhuma humana, despido de medos, despido de tudo, vestido de mim, ali naquela clareira estava ofegante, extenuado, suado e gelado, mas ali naquela clareira eu era livre, ali tinha um sorriso rasgado, ali fazia o que gosto e o que queria, era aquela a razão porque corria, ali eu era feliz, ali naquela clareira eu sou eu, mais nada. Se me visse de fora para dentro, o eu que estava naquela clareira, pese embora saber que não tinha o corpo preparado para fazer uma maratona, pese embora saber que nunca poria em causa a possibilidade de correr naquela clareira por causa de uma pubalgia que já o retirou três meses de actividade, aquele eu não irá à Maratona do Porto porque não é um sonho dele, pelo exercício de livre arbítrio, porque não o quer, porque não tem uma motivação intrínseca para o fazer, aquele eu, como os mais próximos dele sabem tão bem, nunca deu importância que outros dão à maratona, nunca sentiu o ouviu o chamamento, o chamamento dele vem da montanha, vem dos rios, vem dos pássaros, vem do resfolgar das folhas, vem da floresta, aquele eu tem 41 anos e já não está para fazer fretes, onde frete quer dizer, fazer o esforço descomunal que uma maratona exige para atingir algo com que neste momento não sonha, este eu não desiste do seu sonho em contrapartida da pseudo-gloria dada por uma maratona.





Subitamente o trilho acaba e numa contracção expulsa-me do ventre do bosque para um estradão, mentalmente grito em protesto contra o fim do trilho, o fim do prazer, o fim do bem bom que se estava lá dentro: Quero voltar!!!




Corro devagar para recuperar a respiração até que um Gaio se planta num ramo de um pinheiro a 3 metros de mim a grasnar ameaçadoramente, paro surpreendido pela situação, penso que deve estar a tentar proteger o ninho da minha presença, mas a verdade é que não estamos na época de nidificação... estamos no outono. Tomo aquilo como um aviso, olho para o relógio, reparo que já fiz 10 kms e sei que já tenho as respostas que queria e volto para trás resoluto e em paz comigo mesmo.



No final...

Ele: O que é que leva gente como tu e eu a adorarem passar 4 a 5 horas dentro da montanha a correr, e não encontram a motivação para passar 4 a 5 horas a correr em estrada?


Resposta: Não sei, mas descubro novas respostas a cada treino que faço...