terça-feira, 28 de julho de 2015

Trail Monte da Lua


(O monte da Lua visto de minha casa no dia anterior)


“Lua, Luar
Toma lá este Bébé
Ajuda-mo a criar
Tu és Mãe e eu sou ama
Cria-o tu que eu lhe dou mama
Em louvor da Virgem Maria
Padre Nosso, Avé Maria”

Oração tradicional portuguesa à Lua de protecção aos recém nascidos.

Introdução

Já Ptolomeu, geografo Grego do Séc. I, a denominava de Serra da Lua, também chamada de Mons Lunae, mons Sacer... Esta serra é desde sempre um local sagrado como o comprova a anta de Adrenunnes. Desde o tempo dos antigos que é falada a existência de um templo do Sol e da Lua nesta zona, um templo que marcava o fim do Império Romano, e do mundo dos homens, e o início do Império do Sol e da Lua, e do mundo onde vivem os Deuses.
Há quem me acuse de anda com a cabeça na lua, e às vezes sinto-me apenas um pequeno grão de areia pousado numa praia a namorar a lua.



Desde muito pequeno que sou encantado por Sintra, mas sempre fui levado a conhecer essencialmente a face nascente da serra, a faceta mais dócil, mais civilizada. Pouco conheço da zona indómita, silvestre, selvagem onde onde se ouve o borbulhar do mar a ferver quando o Sol nele mergulha. Do triângulo Guincho, Peninha, Praia da Maçãs.



Eram 7:30 da manhã e um automóvel rasgava o IC19 em direção a Oeste. Lá dentro três caras fechadas e seis olhos de sono, evitavam cruzar olhares entre si até que o silêncio incómodo é quebrado por acusações entre dentes. De quem é que foi a ideia desta corrida? E entre dentes a culpa era passada de mão em mão até morrer solteira.



Batiam as 8:00 quando os nossos pés se enterraram na Praia das Maçãs, e após uns largos minutos de hesitação, entre o portal de partida de um lado, e as ondas dançando lá em baixo e cantando musicas de enfeitiçar do outro, lá nos convencemos que tinhamos mesmo de fazer a corrida e dirigirmo-nos vagarosamente para a organização fazer o check-in.

Partida

Quando apitou o som para o início da corrida, começamos a correr areia fora. O primeiro obstáculo era o rio que desagua na praia das Maçãs, e logo 100 metros depois da partida temos um engarrafamento de corredores, mas a verdade é que é divertido saltar de pedra em pedra para a outra margem. Do outro lado, subindo uma ribanceira, o trilho estreita de tal forma que se dá inevitavelmente um segundo engarrafamento. Aqui alguns corredores começam a fazer pouco da situação. 150 metros de corrida e já tiveram que parar duas vezes. Subimos a ladeira e finalmente começamos a correr. 100 metros depois, na primeira descida que temos, nova paragem. Três paragens nos primeiros duzentos metros… Enfim.



Foi tempo de meter conversa com um divertido casal de “trailers”, e trocar impressões sobre provas e filmagens, uma vez que um deles levava uma GoPro na testa. Parece que a imagem fica sempre tremida.

(e tu ali à minha espera)

Bom, lá tivemos de parar a conversa e recomeçar a correr, e pensam vocês: Este tipo reclama quando tem de correr e quando não o deixam correr. Estás sempre, sempre a reclamar. Pouco depois passamos por uma zona de vivendas, o Eduardo como habitual é cumprimentado por uma rapariga, e entramos numa zona de pinhal…


(Sr. Fotografo, há mais para além das meninas)


Passando por baixo de um pinheiro eu queria correr, eu juro que queria, as minhas pernas puxavam mas o meu corpo não avançava pese embora todo o meu esforço, ouvia a minha camisa a rasgar e sentia uma dor muito forte no ombro. Ah era só um ramo de pinheiro a rasgar-me o ombro. Soltei-me, perguntaram-me se estava bem, e recomecei a correr trilhos fora.



Pouco depois começamos a subir em estradão, e o Pedro finalmente me apanha. Passamos por outra zona de moradias, as moradias dão lugar a autenticas Villas (quase Toscanas), as Villas dão lugar a Palacetes e a fonte local dá lugar a um abastecimento.



1º Abastecimento - 10 kms

Depois do 1º abastecimento, deixei-os ir à sua vontade e foi como um homem só que entrei num reino verde e castanho, feito de árvores e dos pássaros, um mundo de orvalho e lama, de luz e sombras, onde eu fazia aquilo que mais gostava com a companhia que mais me aprazia, a minha. Uma sinfonia de perguntas e respostas entre miríades de pássaros, o restolhar das folhas das árvores, o som surdo das passadas a percutir o ritmo complementado com as batidas do meu coração e os meus pensamentos era a melodia o que eu precisava para ser feliz naquele momento.



Ainda assim, atrás de mim, um corredor a fazer-se a uma corredora, com conversa ininterrupta sobre o tempo e culpa da humanidade no estado do planeta estragava o momento. Não sabem que os momentos de maior cumplicidade são aqueles que se trilham lado a lado num silêncio inexplicavelmente confortável?



Pouco depois apanho o Pedro, e é num estado de maravilhamento puro que penetro num trilho mínimo que sobe por uma floresta de loureiros vestidos por longas túnicas de Hera, e cobertos a 10 metros de altura por uma campânula de brumas.




Subimos serpenteando entre troncos e por cima de um manto verde. A respiração torna-se pesada com o passar dos kms e da humidade, os atletas começam compactar-se e reparamos que não se ouve o chilrear dos pássaros, não se ouve o resfolhar das copas, não se ouve um som, nada…



E é neste ambiente semifantasmagórico que temos de passar umas vezes por cima outras por baixo de árvores caídas, correndo num estradão largo que passa por uma lagoa, que não sabia existir no meio da serra. Repentinamente o estradão vira à esquerda e obriga-nos a embrenhar outra vez na floresta num trilho de downhill. (Tu! Sim tu que estás a ler, repara nesta parte!) Baixo o centro de gravidade (i.e. o cu) e corro por rampas, salto por cima de buracos, cavalgo por aquela terra macia, ultrapassando tudo e todos. O mundo torna-se uma prova de toboggan, o mundo é um carrossel, o mundo é uma montanha russa.


O trilho desemboca com força num estradão que calmamente se vai transformando numa subida em que ainda corro, depois numa subida íngreme a pé, por último numa parede em que me arrastava até lá acima, mas de repente... de repente a paisagem tirava-nos o fôlego. Desde o Guincho até aos vales mágicos lá em baixo e até uma montanha lá em cima, uma montanha que deixa entrever a espaços o seu corpo de granito, misteriosamente coberto pelos lençóis de nevoeiro.





2º Abastecimento - 16 kms

Do alto de um penedo o trilho cede para voltar a subir de forma íngreme até uma igreja em ruínas, onde se encontra o 2º abastecimento, meio litro de coca-cola (não sei o que me deu) e umas fatias de melancia depois reparo que por cima da igreja fica o penedo onde se situa o santuário da nossa senhora da Peninha.



Quando resolvo sair daquela situação de conforto físico e gastronómico entro numa floresta de cedros. É um bosque mágico (já usei a palavra mágico quantas vezes neste texto?), onde os cedros vão criando um templo à vida intemporal com as suas copas e as suas colunas majestosas. O ambiente naqueles corredores sagrados é diferente, a terra muito escura resultante de centenas de anos de deposição de resíduos das árvores, o ar, o perfume, a luz é algo de muito próprio, como se fosse outro mundo.





Infelizmente a felicidade não dura para sempre e depois de umas descidas maravilhosas, dou comigo a palmilhar o estradão e depois o duro asfalto. O percurso passa depois por um dos bares da minha adolescencia, o Moinho e seguindo pelo estradão, cerca do km 20º apanho o Eduardo e o Pedro e sigo em direção às falésias... às falésias... às falésias... ai as falésias.

Falésias - 20 kms feitos



As falésias são outra maravilha da Finisterrae Sintrense. Com uma flora parca em árvores devido aos ventos fortes e ao ar salgado, pontuam os arbustos de personalidade forte e de folhas rijas e resistentes ao sal, preparados para apanhar a humidade trazida pelas nuvens que ali nascem. Por baixo das folhas jazem armadilhas de raízes e gravetos forte, bem como a pedra calcaria que se solta à nossa passagem.


A beleza que o quadro das falésias nos apresenta, é inversamente proporcional à dificuldade de as fazer. Se até aqui tinha demorado 2h46m em 20 kms, os restantes 8 kms seriam feitos em 2h19m praticamente metade da prova em tempo estava feita, faltava a parte mais difícil.




Deixei os meus companheiros descer à frente e comecei a descer. Espero que muitos de vocês saibam ao que me refiro, mas para os que nunca fizeram este tipo de prova, é descer uma parede natural de mato e pedra, onde a qualquer momento podemos tropeçar e ir para lá baixo num instante, e ter uma morte abençoada. Mas lá em baixo espera-nos uma praia das mais lindas que eu alguma vez vi. Sim provavelmente a água é gelada, mas não há ondas e a água é de um verde transparente lindo.



Estas eram as praias para onde, desde sempre, naminha cabeça imaginei trazer as raparigas que me inspiraram a mente e o coração, e trazê-las de volta são e salvas, mas não sabia que existiam... as praias claro, também não tinha a coragem de as convidar, admitamos... as raparigas, e era preciso a rapariga certa para querer vir para estas praias... enfim lindas e perfeitas... a praias claro.


E se depois de descer e usar músculos que nós na vida do dia-a-dia não utilizamos, os glúteos, o biceps femoral, em suma, os músculos da parte de trás da perna. Depois da descida começa outra tarefa titanica, a subida. Se a descida foi muito difícil com vários ameaças de queda, a subida se bem que mais segura, exigiu muito mais dos músculos e da mente. Pedra a pedra, metro a metro, a minha mente obrigava-me a subir mais um degrau, mais um centímetro, mas nem por isso o cume ficava mais perto, subi 100mts de altura em 200 mts de comprimento.


Lembrei-me de uma frase lamechas de Lao-Tse:  "Ser amado profundamente por alguém te dá força; amar alguém profundamente te dá coragem.". As minhas pernas clamavam pelo amor de alguém, porque dentro delas só encontravam a coragem para seguir em frente.



À segunda escalada, por muito deslumbrante que fosse a paisagem as pernas tinham muita dificuldade em manter o bom humor, no topo acabei por encontrar o meu prof de natação, que acabou por me dar a força que eu necessitava para passar o Cabo da Roca a correr até ao 3º abastecimento.


Depois de mais de meio litro de água suja do capitalismo no organismo, estava minimamente recuperado e avisaram-me que o que seguiria era a praia da Ursa, o maior obstáculo que iríamos enfrentar.


Lentamente corri no trilho que me levava a uma e que obstáculo. A descida mais técnica que alguma vez fiz. Não tenho muito orgulho em escrever isto mas a descida foi feita com apoio de mãos e pés, de tanta pedra e inclinação que tinha. Lá em baixo, só me apetecia ficar na praia e a subida foi feita muito muito devagar. A pensar bem onde meter cada pé numa longa, longa maratona até lá acima.

A cada passada combatia com a mente os pensamentos intrusivos de me sentar, meter os cotovelos assentes nos joelhos, a cabeça entre as mãos e deixar que alguém me levasse dali. Até que pé após pé, inspiração após expiração, batida após batida cheguei ao topo.


No topo da falésia, encontrei-me com a solitude de mim mesmo, mirei o abismo em baixo de mim e depois o horizonte, fechei os olhos, de pulmões colapsados, inspirei todo um novo mundo de maresia para dentro de mim, para substituir os sonhos já não sonhados. As novas forças não faziam milagres, não conseguia correr, mas por muito que as minhas pernas estivessem empedernidas havia que seguir em frente e marchar os próximos  kms.


Nova falésia, nova arriba, esta mais pequena mas feita com a cabeça e não em força. Sabendo que era a última, Interessava-me chegar ao fim da escalada sem lesões.


Recomecei a correr na descida de acesso até à praia da Ribeira da Maceira, já tinham passado 24 kms, seguia-se uma subida por entre pinheiros num piso de areia seca, onde os pés se enterravam a cada passada. Ainda assim um largo grupo de franceses vocifera a sua opinião à nossa passagem: "Bravo, bravo" e um espantoso "vous êtes fou". Durante a subida um atleta pede o meu último gel, está cheio de caimbras nas pernas. Lá em cima tento puxar por ele e recomeçar a correr devagar, mas umas centenas de metros à frente ele pára de repente agarrado à perna.


Por precaução resolvo fazer o espaço que nos separa até à praia Grande a pé, mesmo sendo passados por vários corredores até chegarmos à escadaria ciclópica que nos leva ao areal. Ali resolvo correr, por um lado o corpo já recuperou parcialmente, por outro não quero dar parte fraca perante tantos banhistas. Mas correr na praia é uma tarefa muito difícil. Cada passada o corpo enterra-se no areal, mesmo na areia molhada. As passadas acumulam-se mas temos a noção de que não saímos do mesmo sitio. No final, ainda temos que fazer um sprint pela areia seca e pela rampa de saída da praia. Tenho 26 kms feitos e faltam dois para acabar, eu devia começar a sentir aquela sensação de superação e de Victoria, não era? mas não...






 A cada passo que dava, de cabeça baixa, de costas quebradas, tinha a certeza de nunca na vida me ter sentido tão exaurido, tão cansado. Doíam-me os tornozelos, os joelhos e a bacia. Os gémeos nalgumas posições prendiam-se em caimbras e os músculos da perna tremiam-me. Doía-me os ombros que quase não conseguem suportar a cabeça. Por falar nisso, doía-me a cabeça.
Não sentia força para travar nas descidas nem para escalar. A cada subida só me apetecia, parar sentar e meter a cabeça entre as mãos e deixar-me ficar. O que me levava para a frente era apenas uma fraca flama dentro de mim, uma réstea de orgulho que ia acabar a prova... rezava à Lua e Rezava ao Sol por forças.




Existem vozes que clamam por aí que a estrada é que é, sempre a dar tudo por tudo, e que os trails é turismo onde se deixa de correr e anda-se, tiram-se fotos e fazem-se picnics nos abastecimentos... Nunca me senti tão cansado, nunca vi corredores tão exaustos como nas provas de trail e ainda assim a dar o melhor de si, para si e para os outros em provas de superação e solidariedade. É uma experiencia profunda, tremenda que tráz o melhor de nós ao de cima, sem nos pôr umas palas nos olhos para correr sempre em frente, corremos connosco e com os outros mesmo que os outros sejam completamente desconhecidos.

Já tinha passado a fase de querer tomar banho na praia das maçãs no final da prova, depois de pagar uma rodada aos meus colegas quando terminasse a prova, agora só pensava em passar o portal de chegada e deixar-me cair no chão...


Mas eis que de repente, a meio caminho da praia das Maçãs, no Alto da Vigia, encontro um tesouro enterrado durante milhares de anos. O Templo romano dedicado ao Sol, è Lua e ao Oceano... Ricardo Campos encontrei-o! Há anos que andava para vir aqui, a este achado arqueológico recente (terá sido descoberto em 2011), que marca o fim do império dos homens e o inicio do mundo...


Munido de uma nova força e de um sorriso na cara, recomeço a correr até à arriba que dá acesso  à praia das Maçãs. Foi aqui que tive uma sensação de extremo que apenas vi nos corredores de ultra-maratonas. Marcado apenas por uma bandeira, não percebo qual é o caminho que pretendem que os corredores façam e entro num frenesim e numa irritação desmesurada até que a falésia me revela o caminho, chamando-me de estúpido, de tão óbvio que é.


Mal começo a correr por ali abaixo, as pessoas que se encontram na praia começam a bater palmas e a dar gritos de incentivos. A Alma nesta altura, a irritação passa, a angustia cura-se e a alma passa do oito para o oitenta. Passo o rio numa cavalgada confiante e já na praia vejo o Eduardo a tirar-me fotos no portal de Partida/Chegada.


Ao contrário do que pensava, afinal consegui correr nos 100 metros finais e sou brindado imediatamente com uma medalha e depois com todo um banquete de melão, melancia, banana, água, pêssego que conseguisse comer... É impressionante como as minhas emoções subiram, desceram e voltaram a subir nesta prova, como se fossem marés à mercê da gravidade do Monte da Lua.

Por fim, já saciado vou ter com os meus companheiros de prova, sentados na areia. Deixo cair o meu corpo como se fosse um saco de batatas no chão e deixo escapar uma catarse de f...-se, c...lhos ma f...am em voz alta.

Sou submergido por uma gargalhada cúmplice de um colectivo que sabe exactamente o que quero dizer...

A Serra essa, ficou cá dentro marcada... para o ano há mais.

P.S. Dedicada a muita gente...