Depois de ter alta da entorse para correr, quis o
destino que a primeira vez que o fizesse com os restantes elementos do
blog decorresse num dia em que literalmente não parou de chover.
De tão desabituado que estava das rotinas de
correr à hora de almoço, que me esqueci consecutivamente dos óculos
(habituei-me a eles com sol ou chuva) - voltei ao balneário - do chapéu (aquece
o corpo) - voltei ao balneário - do cartão para sair e entrar no edifício -
voltei ao balneário… os meus companheiros esperavam-me debaixo das arcadas do
edifício com um olhar entediado e reprovador.
Lá fora, as pessoas vão atravessando a rua todas
agasalhadas com sobretudos, em passitos de corrida inibidos, dobradas sobre si
mesmo com medo do céu, da chuva e do chão… e nós em t-shirt e calções.
Abandonámos a protecção das arcadas e o céu cinzento
recebe-nos chorando copiosamente, de alegria pelo meu regresso só pode, e penso
– vão ser 40 minutos à chuva, tal e qual como quando era criança. A dez metros
de nós, agasalhada e debaixo um chapéu-de-chuva, a T. olha para nós em traje de
corrida e sorri de forma sarcástica.
E de repente mergulhamos numa cascata ininterrupta
durante 8 kms…
Corri apenas com o objectivo de fazer 8 kms, não
liguei a ritmos nem a tempo, simplesmente deixei-me ir ao ritmo do meu corpo tal
como a água que fluía avenida abaixo. Lado a lado com o Ricardo cheguei ao
Campo Grande, despreocupado, nem sequer franzia os olhos para ver melhor com a
chuva. Debaixo das árvores caiam os pingos grossos, e o Ricardo vira-se para
mim, com um sorriso escarrapachado na cara, e diz: “Adoro correr à chuva!”
Três voltas ao Jardim depois, sentia a roupa a
pesar mais três quilos, os pés encharcados, a cada passada sentia que o
calcanhar levantava lama que ia aterrar no gémeo simétrico. Mas sentia-me bem,
sentia-me confiante, sentia-me feliz.
Só há uma forma de correr à chuva, é perder o medo
do frio - que vai desaparecer à medida que aquecemos, perder medo de cair ou
escorregar numa poça, e principalmente perder o medo do que as pessoas pensam
de nós – os maluquinhos das corridas. E aí podemos falar, rir, beber água da
chuva, correr de costas direitas e cabeça levantada…
É entregarmo-nos totalmente á natureza, não só à
que nos rodeia, mas também à nossa própria natureza, porque também nós somos
animais, somos mamíferos que até há poucos milhares de anos feriamos presas e
depois corríamos kms atrás delas à espera que se cansassem vivíamos e experienciamos as estações, com os seus
ciclos de luz e calor.
Hoje em dia criamos uma barreira virtual entre nós
e a natureza, colocamo-nos a nós próprios num pedestal tão superior, que
esquecemos que, no fundo, somos parte dela. Aconteça o que acontecer, também
nós somos filhos da Terra, do Sol e da Lua, que regula as marés. Para correr à
chuva é preciso transpor esta barreira e quando isso acontece somos livres…
Adoro correr à chuva! :)
ResponderEliminarE eu também passei a gostar! Ainda me lembro do primeiro treino à chuva, ou melhor, debaixo de um temporal! Para corajosos... É uma sensação boa de liberdade!
ResponderEliminarAinda hoje senti os meus gémeos salpicados de água e lama pelo ténis do pé simétrico, tal e qual como descreves. :)