terça-feira, 7 de abril de 2015

TRAIL DE MONSARAZ - UMA EXPERIENCIA


 
Resumo da prova


A última coisa a fazer no sábado à noite foi, evidentemente, preparar tudo para a prova. Colocar dorsais, preparar a mochila para que no dia seguinte fosse tomar o pequeno-almoço e partir para a corrida.

Era finalmente o meu regresso aos trails. Admito que possa não ser bom neste desporto, mas adoro a sensação de correr na montanha, por trilhos mínimos, por sítios onde normalmente os humanos não vão. É uma aventura e faz-me sentir vivo. E a ansiedade que me consumia por dentro, me dava medo de não aguentar os 25 kms vivo (nunca tinha feito esta distancia) e ainda assim a ir para a frente o projecto.

Tínhamos pedido para abrirem o pequeno-almoço às 8h e fomos os primeiros a abrir a sala. Mas pouco depois foram entrando pessoas trajadas para correr e reparamos que afinal o hotel estava cheio de trailers.
Pequeno-almoço com pãozinho alentejano quentinho, fiambre, queijo, sumo natural de laranja e chá de frutos silvestres... Ah e doce de abobora. Doce de abobora espalhado por cima do pão... hmmm... só antes das corridas por causa da dieta.

Ultima passagem pelo quarto, apanhar as mochilas, esvaziar a tripa e irmos para o Convento da Orada.

No ar um drone branco voava sobre as nossas cabeças. Nunca tinha visto um drone ao vivo. Não gosto (ver o final).
Nem fizemos aquecimento, simplesmente mandamos umas piadas para o ar, cumprimentamos o Marcolino e toca a partir. Inicialmente surpreendido por ver quase 500 pessoas na partida, reparei que muitos traziam ténis de estrada e pouco a pouco percebi que iam à prova dos 12,5 kms.
 
 Passamos no cromeleque do Xerez a correr, e confesso que sempre me apeteceu correr por ali, mesmo quando passei uma fase em que ia ao Alentejo como quem vai caçar monumentos megalíticos. Ver nascer o sol dentro de um deles é algo de memorável.
Passados uns kms de aquecimento começamos a subir até uma ermida nos arredores de Monsaraz. Uma série de rampas sucessivas que se fazem bem, se calhar por ser no início da prova.
Sempre atrás do Pedro, passamos primeiro por um planalto onde o cheiro a estevas era Rei. Depois primeiro lentamente começamos a descer e de repente o mato cerrado de estevas cede e dá lugar a uma visão que me tirou literalmente o folego. Lá em baixo o Grande Lago abria-se à nossa frente num espelho de água serpenteando entre ilhas e ilhotas.
 
Pasmado com tamanha beleza durante uma descida abrupta, torço o tornozelo. Recupero rapidamente mas fico a rezar para que a entorse não me estrague o resto da corrida.
(não resisti a tirar esta foto enquanto corria, tão ternurenta, não tem outra razão para estar aqui)

Junto ao imenso espelho de água, o perfume das estevas transforma-se em cheiro a poejos. Só me vem à cabeça um arroz de bacalhau com poejos que comi há uns anos. Tenho fome e ainda me falta correr cerca de 20 kms.
Passamos cerca de 10 kms a circundar o Grande Lago, sem grandes subidas nem descidas. O silencio à nossa volta era algo de sacral, espalhava-se pelo espelho de água como um Altar telúrico à vida. Por fim um abastecimento (vulgo picnic) pelo caminho, para festejar a Sua Beleza.
 
Depois desse passeio à beira Rio ergue-se uma parede/rampa monumental. Nunca tinha subido uma coisa assim. Pese embora já não fosse a correr, tinha de parar a meio para ganhar força nas pernas. Até o Marcolino, que ficou em 3º da geral me disse que fez a rampa "quase, quase a andar".

Mas no fim a terra brindou-nos com uma vista fantástica.
Novo abastecimento e recomeçamos a descer. Para subir mais tarde.
 

 
Mas a Montanha clamava por mim num desejo de carne contra carne, e num trilho mínimo o meu pé direito prende-se numa raiz. Ainda tenha resistido vários passos em desequilíbrio, mas a gravidade vence a vontade de correr e acabei por sentir a dor deste amor impossível que me sulcava no corpo. Grande tralho! Mas felizmente sem consequências de maior para além de uns arranhões de amor. É levantar e seguir.
Até ao abastecimento do km 20 apanhei os meus companheiros de viagem e fizemos um pequeno picnic no topo de outro monte, onde pela 4ª vez uma senhora nórdica ou eslava, que alcunhámos de Viking nos passava.
Passo a explicar, cada vez que parávamos num abastecimento reparávamos que uma senhora nórdica passava por nós sem parar para beber ou comer. Passávamos metade da etapa seguinte a tentar apanha-la para depois ela nos passar no abastecimento.
 
A cada subida ela evocava “Ai minha nossa senhora” e nós pensávamos, “ela está cansada já a vamos passar…” nada de mais errado. Ela não parava!
(foto à Pro)
 
E assim, depois do último abastecimento, fomos atrás dela, ou melhor foram eles, o Pedro e o Eduardo, que eu já estava a quebrar. Fui deixando-os ir até que quase à entrada de Monsaraz já não os via, mas via a Viking e dei-me uma nova missão: Ficar à frente da Sra!
Segui-a e corri determinado atrás dela. “Ah que ermida tão bonita! Vou parar para tirar mais uma foto.” E lá se foi a viking. Tenho de ir outra vez atras dela.
 
A subida a Monsaraz, contornando o castelo, subindo as ameias fez-se com uma leveza que não estava à espera. Deve ter sido o efeito psicológico de saber que já tinha feito 21 kms e que faltaria pouco. A meio ouço “Minha Nossa Senhora!” a ficar para trás, afinal ultrapassei-a.
Saí da vila, e a descer notava alguma falta de força nas pernas para travar. Mas tinha que subir à Ermida de São Bento, a última subida, o último esforço, o último sofrimento pensava eu. Mas a verdade é que quando comecei a descer por entre os sobreiros doía-me tudo.
 
Não tinha pernas para travar, e estava a ver que me esbardalhava todo. Outra vez. Às tantas ouço uma “Minha Nossa Senhora” a passar por mim. Os dedos do pé, melhor todos os dedos dos pés, a cada passo que tinha a descer e travar, batiam na parte da frente dos ténis e doía-me como se me tivessem a espetar agulhas.
Quando chegamos à civilização, no último km, já quase não conseguia levantar os pés para correr, a estrada em vez de ser de alcatrão era de xisto, o que travava o passo e proporcionava novas sensações dor nos pés.
(quero um relógio da CARMIM)
No final, contra tudo e contra todos, sprintei para ver se apanhava a nossa amiga Viking, mas na recta tive um amigo que 5 metros antes da meta se mete minha frente para me entregar uma mini de cerveja preta.
 
Tempo final: 2 horas e 52 minutos de prova.


P.S. Mensagem da Organização depois de terminada a corrida (dia seguinte)
"COMUNICADO
Foi encontrado um Drone branco caido em Reguengos de Monsaraz, pedimos a quem lhe pertencer que entre em contato com ... "

:)

11 comentários:

  1. O resumo está excelente!!

    Pedro, nunca enganaste ninguém...

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    1. Obrigado, prepara-te bem para vir connosco.
      Mas olha que o desejo é partilhado.

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  2. Experiência espectacular!!
    Aquele gráfico está muito bem apanhado!...
    Beijinhos!

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    1. Olá, pois é todos os trails são experiencias diametralmente diferentes.
      Obrigado
      Beijinhos

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  3. Adorei a descrição da tua aventura! Obrigada por fazeres valer a pena organizar o Trail de Monsaraz em 2016!

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    1. Obrigado nós por tudo. Pela experiencia, pela organização e pela boa disposição.
      Para o ano lá estarei prometo! (espero não quebrar o voto)
      Já agora, seria possível no final haver algum recuerdo da CARMIM? ;)

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    2. ...da CARMIM, mas para o ano. É só uma ideia :)

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  4. Foi um fds muito bem amanhado sim Senhor.... e fiquei contente pela tua performance, agora é recuperar e preparar a próxima aventura :)
    Abraço

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    1. Obrigado, foi um passeio muito divertido a três. Grande fim de semana.

      Abração e obrigado pelas fotos :)

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  5. Olha lá, foi um tempo muito bom para quem lhe aconteceu tanta coisa! (Queda, arranhões, paragens para fotos...) Nem precisas de fazer uma Ultra, condensaste tudo em 25km. ;)
    Nunca fiz nenhum trail nos montes do Alentejo, está em falta!
    Bjs, parabéns pela prova e pelo relato (e o gráfico está o máximo :) )
    PS: A viking dizia "“Minha Nossa Senhora!” ou "Holy Mary, Mother of God!"? ;)

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  6. Olá :) Obrigado por tudo. sabes que o tempo não me importa muito nos trails. Quanto mais tempo mas conseguimos aproveitar a experiencia.
    No Alentejo é preciso ir com tempo, é cultural :)
    Parece que o gráfico teve muito sucesso...
    A Viking (rija) afinal era Russa/Ukraniana (ups...incidente diplomático) e dizia Minha Nossa Senhora com um sotaque eslavo. :)

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